No Distrito Federal, histórias de dor têm sido ressignificadas em trajetórias de autonomia. Mulheres que enfrentaram relacionamentos abusivos encontraram no empreendedorismo uma saída para recomeçar — e mais do que isso: reconstruir suas próprias vidas.
Segundo dados do Sebrae, o número de mulheres à frente de pequenos negócios no Brasil cresce de forma consistente nos últimos anos, impulsionado, principalmente, pela necessidade de independência financeira.
Mas, por trás dos números, existem histórias que revelam coragem.
“Eu precisei escolher entre o medo e a liberdade”
Moradora da periferia do DF, Ana Paula* (nome fictício por segurança) viu sua vida mudar após anos em um relacionamento marcado por agressões psicológicas e financeiras.
Sem renda própria, ela dependia completamente do companheiro — situação comum em ciclos de violência doméstica.
“Eu não tinha dinheiro nem para pegar um transporte. Foi quando percebi que precisava fazer algo por mim”, conta.
A saída veio de dentro de casa. Com um forno simples e ingredientes comprados com ajuda de uma amiga, Ana começou a vender bolos caseiros pelo Instagram. O que era uma tentativa de sobrevivência se transformou em negócio.
Hoje, ela atende encomendas semanais e já consegue manter as despesas da casa.
“Não é só sobre dinheiro. É sobre dignidade.”
Empreender para sobreviver — e viver
Histórias como a de Ana não são isoladas. Especialistas apontam que o empreendedorismo tem sido uma alternativa concreta para mulheres em situação de vulnerabilidade.
De acordo com o Sebrae, mais de 10 milhões de mulheres empreendem no país, muitas delas motivadas pela necessidade — e não apenas por oportunidade.
A independência financeira, nesses casos, representa também uma forma de romper ciclos de violência.
“Quando a mulher passa a ter renda própria, ela ganha poder de decisão e aumenta as chances de sair de situações abusivas”, explica Rose Rainha, superintendente do Sebrae DF.
Das redes sociais ao sustento da família

As redes sociais têm sido grandes aliadas nesse processo. Plataformas como o Instagram se transformaram em vitrines digitais para pequenos negócios — especialmente aqueles liderados por mulheres.
Foi assim que Juliana Ferreira, 34 anos, moradora do Riacho Fundo I, encontrou sua virada.
Após sair de um relacionamento abusivo, ela começou vendendo kits de beleza e autocuidado.
“No início, eu vendia para amigas. Depois, comecei a postar e as pessoas foram chegando”, lembra.
Hoje, Juliana tem uma clientela fiel e já planeja expandir o negócio.
“Eu descobri que podia ser dona da minha própria história.”
Empreendedorismo que salva vidas
Além da geração de renda, iniciativas de incentivo ao empreendedorismo feminino têm papel fundamental na transformação social.
Projetos de capacitação, redes de apoio e acesso à informação ajudam mulheres a desenvolver habilidades e enxergar novas possibilidades.
No DF, grupos comunitários e ações independentes têm fortalecido essa rede — muitas vezes lideradas por mulheres que já passaram pelo mesmo processo.
A jornalista e comunicadora Cleia Araujo acompanha de perto essa realidade. Por meio de suas plataformas, ela dá visibilidade a histórias de superação e incentiva a autonomia feminina.
“Não é só sobre empreender. É sobre dar voz, acolher e mostrar caminhos. Muitas mulheres só precisam de uma oportunidade para recomeçar”, afirma.
Um recomeço possível
Para muitas mulheres, empreender não começa com planejamento — começa com urgência.
É a necessidade que vira impulso. O medo que se transforma em coragem.
E, pouco a pouco, o que era apenas uma saída se torna um novo caminho.
“Hoje eu posso dizer que sou livre”, resume Ana.
Serviço e apoio
Mulheres em situação de violência podem buscar ajuda por meio do telefone 180 (Central de Atendimento à Mulher) ou em delegacias especializadas.

